Olá amigos, novamente participei do CLIPP
- Concurso literário de Presidente Prudente e como no ano anterior
em que tive um poema e uma crônica participante do livro lançado,
dessa vez a crônica abaixo é que foi a escolhida. O concurso está
cada vez mais concorrido e conta com a participação inclusive de
autores estrangeiros. Por isso, fico imensamente feliz em poder
participar do lançamento deste livro/coletânea de poesias e
crônicas. Agora é só nos preparar para o VI CLIPP que
ocorrerá em 2012. Abraços e curtam a crônica da página 73 que é de
minha autoria.
CONCURSO CULTURAL –
CRÔNICA
ENTRE OLHOS E CELAS
Enigma
Quando entrei pela primeira vez na prisão, algo me fez ver que
eu havia feito uma grande burrada e agora pagava por isso. Deram-me
um uniforme esquisito. Disseram-me que agora deveria andar na linha
ou acabaria ‘me arrastando’. Não entendi bem o que
significava, mas mesmo assim, quase que por instinto quis saber o
que deveria ser obedecido, como seriam as revistas, as
‘blitz’ surpresas e tudo mais. Quando os grandes
portões bateram atrás de mim, meu estômago embrulhou, o ar era
diferente. Pesado. Tenso. Os paredões eram altos e as caras muito
mal humoradas. A maldade tinha cheiro e eu nem pensava que pudesse
ser assim. Eu não poderia carregar nada, deveria fazer o que me
mandassem fazer e existia uma hierarquia que passei muito tempo
para conceber, aceitar e obedecer. Nesse meio tempo apanhei um
pouco, é claro. De manhã, tinha a contagem, algo sagrado, ai de
todos se faltasse um só preso. Logo tive que me habituar à língua
local: ‘marrocos’ é pão com manteiga, banana é
‘macaca’ e ‘funça’ é funcionário, às vezes
também chamado de ‘verme’, algo não tão educado. O
almoço, ou ‘bóia’ é entregue cedo, lá pelas dez e meia
e são os ‘faxinas’ que recebem e os
‘boieiros’ os que distribuem. Aos poucos vou guardando
os nomes. Todo dia a ‘bóia’ é diferente, tem vez que é
carne com batatas e salada, outra vez, abobrinha refogada e carne
moída. Sempre tem um que reclama quando o almoço ou a janta se
repete por mais vezes na semana. Dizem que os ‘funça’
estão ‘tirando’, sei lá, acho que isso é só
manifestação de desagrado. Fico pensando em quantos estão comendo
arroz puro ou apenas um ovo requentado que lhe servirá de nutrição
para um dia inteiro de trabalho braçal. Á tarde tem futebol, fico
só olhando, sempre tem um que chuta a canela do outro e sai pedindo
enfermaria. Lá pelas quatro são todos trancados, é hora em que os
presos assistem à novela e esperam nova contagem. Fim de Semana tem
visita, só se vê feijoada, macarronada da mamãe, salgados e
sobremesas passando. O rádio toca um rap no rádio dentro das celas
enquanto alguns estão fazendo amor com suas respectivas amásias.
Penso em quanto tempo vou ter que ficar aqui. Meses, talvez anos.
Uma sensação de frustração e tristeza me invade. Eu sei que está
tudo quieto... por enquanto. Já ouvi comentários de que quando fica
quieto demais é por que a coisa vai ficar feia, muitos já morreram
assim. Não posso fazer nada. Sou obrigado a ficar aqui. Tenho que
sustentar minha família. Sou concursado, eu escolhi viver assim,
entre olhos e celas.